quarta-feira, 6 de junho de 2012


Resenha filme "Solteiros com Filhos" (Friends with Kids / 2012 / EUA) dir. Jennifer Westfeldt


Por Lucas Wagner

 Solteiros com Filhos é uma "dramédia" romântica que busca, a primeira vista, fazer uma discussão acerca das consequências na vida de um casal quando chegam os primeiros filhos, mas que, aos poucos, vai se revelando um filme que possui características auto-biográficas de sua diretora/roteirista/atriz Jennifer Westfeldt, construindo um romance interessante que vai nos conquistando pela doçura de seus protagonistas.

  Dentro de um grupo de amigos formados por seis pessoas, os únicos que não formam um casal são Jason (Adam Scott) e Julie (Jennifer Westfeldt) e, como logo descobrem, são os únicos que não estão prestes a se tornar pais. Se sentindo excluídos, e até mesmo atrasados em relação a seus amigos, Jason e Julie decidem ter um filho juntos, não como um casal, mas como amigos, pensando que essa falta de envolvimento romântico impediria as brigas, discussões que eles buscam evitar.

  O ponto mais alto do longa é como esse vai trabalhando a relação entre Jason e Julie. Os dois são amigos a cerca de 20 anos, e possuem uma intimidade absurda. Eles possuem uma imensa liberdade para conversar um com o outro da maneira como bem entenderem, sobre qualquer tipo de assunto. E é muito doce ver os dois juntos, o que não seria possível caso Scott e Westfeldt não tivessem uma química tão maravilhosa. Vendo-os juntos é doce, é bonito, e você sente que, não importa o que aconteça, eles estarão ao lado do outro. Isso é extremamente necessário, já que, quando eles começam com a idéia de ter um filho (mesmo que a discussão que os leve a essa idéia seja ridícula e represente um dos aspectos mais fracos do longa), essa possibilidade não surge como algo impossível, mas como uma idéia interessante, já que sabemos como eles têm intimidade suficiente para isso.

  Aí chegam as melhores cenas do longa. Quando tem o seu filho (Joe) passamos a acompanhar a rotina desse "casal", e somos completamente conquistados pela maneira como eles são sinceros um com o outro (como quando Julie pergunta para Jason se ela já está novamente bonita quando pelada), com suas brincadeiras, com o modo dinâmico como cuidam de Joe. E (como não é surpresa para ninguém, é só ver o trailer e ter visto alguma comédia romântica na vida), os dois iniciam um relacionamento (ou melhor: conflito) amoroso que conduz o filme. Mas, assim como no livro e no filmeUm Dia, esse relacionamento surge de forma ainda mais natural pelo fato de os dois já serem tão amigos que é como se eles se conhecessem tanto que ficar com outra pessoa poderia parecer errado.

  O relacionamento de Jason e Julie ganham contornos ainda mais interessantes pela tridimensionalidade dos dois personagens. Se de início os dois não parecem mais do que clichês que já conhecemos tão bem, é um fato que, no decorrer do longa, os dois vão sendo tão bem desevolvidos, seus sentimentos tão bem trabalhados, que é como se fôssemos íntimos deles. E mais uma vez a atuação dos dois intérpretes se mostra fundamental. Observem como Adam Scott pega um arco dramático (que se assemelha com o típico arco vivido de forma tão brilhante por Neil Patrick Harris - o Barney Stinson - no seriado How I Met Your Mother, ou por Charlie Sheen quando Two And a Half Man era uma boa série) comum mas vai desenvolvendo-o tão bem, com tantas sutilezas, que o seu processo de amadurecimentovem se de forma natural. E quanto a Jennifer Westfeldt, notem como ela consegue fazer os sentimentos, as confusões emocionais de Julie não parecerem apenas "problemas de mulher", mas parecerem algo real.

  O resto do elenco faz um bom trabalho (tirando Megan Fox, que é sensacionalmente/absurdamente/inesquecivelmente/maravilhosamente/blablablamente linda, mas que falha como atriz), principalmente no que diz respeito ao casal interpretado por Maya Rudolf e Chris O'Dowd que conseguem demonstrar o cansaço de suas vidas de casado ao mesmo tempo que demonstram bonita intimidade através de sutilezas como no momento em que se encontram casualmente de mãos dadas durante um jantar, mesmo depois de tantos anos de casados. Kristen Wiig consegue se afastar completamente da figura grotescamente cômica que criou em Missão Madrinha de Casamento e no programa Saturday Night Live, criando aqui uma personagem trágica, ao passo que Joe Hamm (ex-namorado da diretora, sendo que foi no relacionamento de mais de 15 anos dos dois que o filme foi inspirado) demonstra com habilidade o doloroso processo de desencantamento de sua vida amorosa. Mas ninguém recebe muitas oportunidades de desenvolver melhor seus personagens.

  Jennifer Westfeldt consegue um desempenho eficaz na direção, construindo uma narrativa que alterna de maneira espetacular entre o drama e a comédia, ao passo que, quando quer fazer algo considerado mais "criativo" o faz de maneira sutil, como ao mostrar uma discussão entre os personagens de Leslie (Rudolf) e Alex (O'Dowd) focando nos movimentos mecânicos de arrumação do apartamento que fazem enquanto discutem. Ainda, Westfeldt acerta ao demonstrar contrastes interessantes na narrativa, como a diferença dos apartamentos de diferentes casais (de Jason/Julie e Alex/Leslie) quando tem seu primeiro filho, ou ainda na linda rima visual que cria em restaurantes chiquês no início e no fim do filme, que mostram com perfeição o amadurecimento de Jason.

  Divertido e comovente, Solteiros com Filhos é um ótimo exemplo de comédia romântica em tempos que não estamos vendo algo realmente bom do gênero (a melhor comédia romântica que me lembro antes desse foi 500 Dias com Ela de 2009), mas não é de jeito nenhum uma obra-prima e nem um filme excelente. Embora eu não tenha apontado muitos defeitos acima, é inegável que não vemos aqui personagens realmente complexos psicologicamente falando. Eles (os protagonistas, para ser mais seleto) são bastante tridimensionais, principalmente devido às atuações, o que já nos leva a nos importar bastante com eles, mas acho que o longa se beneficiaria se esses fossem mais complexos.

  Mas, no fim, acabamos mesmo nos sentindo bem satisfeitos pela experiência doce e engraçada que vivemos nos 107 minutos de filme. E a cena final deixa ainda mais clara os objetivos pessoais da diretora, que parece permitir a si mesma, como pessoa, o benefício da possibilidade de um destino amoroso que possam conter maiores surpresas e revelações, preferindo concluir de uma maneira brusca, mas que se revela eficaz já que nos leva a pensar não no que virá para aqueles personagens, mas no momento, apenas no momento em que eles estão vivendo. Solteiros com Filhos é, assim, uma forma de terapia para sua diretora, o que é fascinante.

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