sábado, 11 de janeiro de 2014


Análise:

O Lobo de Wall Street (The Wolf Of Wall Street / 2013 / EUA) dir. Martin Scorsese

por Lucas Wagner

Jordan Belfort destruiu a vida de diversas famílias inocentes ao deliberadamente convencer pessoas a comprar ações, garantindo à elas uma riqueza incomensurável que, é claro, era apenas um truque para tomar seu dinheiro e ficar cada vez mais rico. Sem nunca lhe passar pela cabeça o mal que poderia estar fazendo, ele se vangloriava de ser capaz de enganar essas pobres pessoas, e entrou numa vida insana baseada em sexo e drogas, buscando apenas o que poderia ser mais prazeroso, sendo inclusive estupidamente inconseqüente, o que levou à sua ruína. O Lobo de Wall Street, cinebiografia de Belfort dirigida por um dos maiores Mestres do Cinema que já existiu, Martin Scorsese (também um de meus mais caros mentores), não busca ser um melodrama que lamuria sobre os crimes de seu protagonista, mas é sim uma viagem insana de três horas de duração que nos leva a adentrar na vida desse homem, conhecendo seu estilo de vida e o universo em que vivia.

Acompanhando uma história sob o ponto de vista de um verdadeiro monstro que nunca aparentou o mínimo sentimento de culpa pelos seus crimes, O Lobo de Wall Street poderia facilmente se tornar um longa moralmente repreensivo e insuportável, já que é impossível não sentir repulsa pelas atitudes de Belfort (DiCaprio). Mas se o filme funciona, e funciona maravilhosamente bem, é por dois motivos principais: a abordagem de seu tom e de seu protagonista e grupo de amigos/comparsas.

Em questão de tom, Scorsese, o roteirista Terence Winter e todo o espetacular elenco, acertam justamente ao conferir uma abordagem descaradamente cômica, explorando todo o potencial de humor que poderia ser extraído do material. Demonstrando todo seu já comprovado talento para o humor negro, Scorsese não se inibe na hora de mergulhar seu filme no puro ridículo do absurdo das situações aqui vistas, conseguindo arrancar gargalhadas ao invés de um senso de inverossimilhança. À guisa de exemplo, fica a (genial!) sequência em que Belfort e seu amigo Donnie (Jonah Hill) ficam sob efeito atrasado de uma poderosa droga, e Scorsese os acompanha em uma longa e embaraçosa sequência com um crescente de absurdos, inclusive cocaína sendo comparada ao espinafre de Poppaye (!), e, num toque de gênio do design de som, ressaltando o som do desenho animado que passa na Tv. Essa, mais a hilária sequência envolvendo um naufrágio, são exemplos perfeitos que mostram a entrega total do diretor à um humor nonsense (mas por vezes sutil), cujo objetivo não é outro senão garantir um tom de farsa que ridiculariza os personagens e aquele universo.

Coadunando para essa ridicularização, os realizadores acertam em cheio ao tratar o protagonista e seu grupo de amigos como adolescentes debilóides e imaturos, desde a abertura do longa que, depois de mostrar uma sóbria propaganda da Sttraton Oakmont (empresa de Belfort), corta para seus funcionários, e presidente, brincando de “atirar o anão ao alvo” (isso mesmo). Acompanhando o grupo de amigos através de suas bebedeiras, orgias, uso compulsivo de drogas, Scorsese e Winter amortecem o impacto dessas pesadas cenas (mas não deixa de retratá-las em suas dimensões) por encará-los sob um viés infantilizado nas suas brincadeiras e conversas fúteis, como quando, numa aparentemente séria discussão de negócios, o tópico é o planejamento do tal jogo de “atirar anões ao alvo”, com comentários tão tolos e juvenis que só poderiam ser fruto da cabeça de adolescentes imbecis (e quando não conseguem conter a risada diante da bronca que um deles leva do pai, o que vemos é uma situação com a qual nos identificamos completamente de nossa época adolescente irresponsável), representando assim a abissal futilidade daqueles indivíduos. Vale ressaltar que Scorsese não desvia sua câmera dos momentos mais moralmente deploráveis e repreensíveis, assim não tentando alienar o espectador, mas sim fazer com que este adote o ponto de vista dos envolvidos, e não do próprio diretor ou de qualquer um de fora daquelas situações.

Tal abordagem infantilizada fica evidente, e se faz mais necessária, no seu protagonista. Jordan Belfort é um pilantra filho da mãe, egoísta e nojento, e aqui essas características nunca são mascaradas pelos realizadores, muito pelo contrário. Mas Belfort é retratado como uma pessoa com grande espírito empreendedor que aprendeu como ganhar dinheiro mas, como um adolescente mimado que nunca amadureceu apropriadamente, já que ganhou muito dinheiro quando ainda muito jovem, acaba por se ver como um verdadeiro dono do universo a quem tudo é possível e algo como limites é desconhecido. Mesmo que aparente um sentimento de culpa ao ser deixado pela primeira esposa, Belfort em poucos dias já se vê completamente revitalizado, ao mesmo tempo em que, numa tentativa fracassada de tirar agentes do FBI do seu pé, acaba por ofendê-los e (sim) jogar lagostas neles, numa representação de alguém que não sabe lidar muito bem com frustações, construindo uma personalidade completamente irresponsável mesmo quando diz respeito à salvar a própria pele.

Ao acompanharmos a mudança de Belfort desde o início de sua carreira até a sua falência, somos capazes compreender ainda mais a dimensão do estrago que aquele universo causou no rapaz. Jovem, com 22 anos, Belfort tinha um senso de fera ambiciosa latente, mas era idealista, acreditava poder fazer dinheiro e ajudar outros a ganhar dinheiro; mas ao usar o que aprende em seu primeiro trabalho em Wall Street (usando como modelo o insano e deturpado Mark Hanna – numa performance hilária de Matthew McConnaughey) para criar seu caminho rumo ao sucesso, Belfort cresce rápido demais, perto de pessoas tão inexperientes no ramo que fazia com que ele parecesse um deus. Assim, é curioso que a equipe da Sttraton Oakmont acabe funcionando como uma grande e deturpada família, já que, justamente por ser jovem, ambicioso e caçador de diversão, o corretor de ações é bem sucedido ao criar um ambiente de trabalho de sucesso, mas notavelmente descontraído. E é esse senso de família/afeto (muito mais forte do que ele tem com a mulher e filhos) e o conhecimento de como Belfort cresceu no ramo que nos permite compreender o carinho que ele desenvolve por sua empresa e seus amigos, o que acaba por humanizá-lo e tornar levemente compreensíveis algumas de suas mais inconseqüentes ações, que acabam por destruí-lo.

A partir desse material, Leonardo DiCaprio investe num trabalho de entrega total. O ator é extremamente competente ao conferir à Belfort um caráter de fome, por dinheiro, por drogas, por sexo, usando e abusando de uma energia inesgotável e furiosa, já que DiCaprio em nenhum momento deixa que o protagonista pareça menos insano do que uma bomba constantemente explodindo. Não que o trabalho do ator seja baseado apenas nas explosões de personalidade, mas ainda consegue fazer um trabalho de voz sublime, muitas vezes fazendo com que a voz falhe como a de um pré-adolescente (confirmando o que vinha discutindo nos parágrafos anteriores) e, num momento comovente, quando se vê contra a parede diante de tudo o que conquistou e construiu, adota uma cadência de voz rouca, baixa e chorosa, dando a impressão de que está lutando contra todas as células do seu corpo para fazer determinado discurso na frente dos funcionários. Belfort tem orgulho de tudo o que conquistou, e ganhar dinheiro não é senão uma outra e poderosa droga na qual é viciado, e DiCaprio compreende isso imensamente bem, permitindo que compreendamos toda aquela fúria e energia e (por que não?) desespero que movem Belfort rumo à limites tão absurdos.

Com esse caráter satírico, o longa foi taxado de defensor das ações de Belfort, como que mostrando uma vida repleta de prazeres. O que, é claro, só pode ser fala de pessoas que não enxergam o absurdo grotesco da existência daqueles indivíduos e realmente acreditem que uma vida dessas seria de todo prazerosa, e não deturpada. Como busquei deixar claro nesse texto, aparentemente o próprio Scorsese parece enxergá-los com reprovação, devido ao tom de farsa e à infantilização dos personagens, e, em certo momento, parece enxergar Belfort como um verdadeiro verme desprezível quando este se arrasta pelo chão, completamente entorpecido.

Scorsese faz de O Lobo de Wall Street quase que um irmão de alma de seus inesquecíveis Os Bons Companheiros e Cassino, usando do mesmo estilo livre e frenético que tanto encantava nesses filmes. Mergulhando num universo imoral e aversivo (como nas obras citadas), o diretor cria plano complexos que acompanham toda a energia insana das ações que se desenrolam, auxiliado pela maravilhosa, frenética e dinâmica montagem da sua habitual parceira Thelma Schoonmaker, que enche o filme de imagens diversas que acompanham a narração, alcançando o milagre de impedir que a obra fique confusa e conseguindo o efeito de transformar aquele mundo do mercado de ações em uma verdadeira selva ou, como diz o próprio protagonista, num hospício. Embalando o filme com seu particular bom gosto na seleção de uma trilha blues e rock n’ roll, Scorsese faz ainda com que a narração de DiCaprio aqui soe tão genial quanto a de Ray Liotta em Os Bons Companheiros e de De Niro/Joe Pesci em Cassino, com Belfort hora narrando os eventos, hora questionando suas ações (chegando mesmo a xingar a si mesmo, indignado) e hora se fazendo perguntas sobre como deve agir, o que acaba tendo o efeito de nos aproximar do personagem, já que estamos vendo o mundo por seus olhos. Esse estilo livre ainda permite uma alternância entre uma narração em off e momentos em que o ator fala diretamente para a câmera, e por vezes, uma sequência pode começar com a narração em off e terminar com DiCaprio falando olhando para a objetiva. Essa liberdade ainda possibilita que Scorsese brinque com as possibilidades de cada cena, como a “telepatia” entre Belfort e o banqueiro Jean Jaques Saurel (Jean Dujardin - brilhante), brincadeira essa que acaba ressaltando o caráter de víbora por trás das máscaras de afabilidade daquelas pessoas.

O Lobo de Wall Street é, então, uma viagem cinematográfica de três horas extremamente deliciosa de assistir, já que é guiada por um gênio do Cinema que sabe exatamente o que está fazendo. E, mesmo que Jordan Belfort não seja um personagem tão complexo e fascinante como outros que povoaram a carreira de Scorsese (como Travis Brickle, Jake La Motta, Teddy Daniels, Frank Pierce, Jesus Cristo, etc), ele é tridimensional o suficiente para permitir que o último plano do longa faça perfeito sentido, ao evocar o rosto de diversas pessoas miseráveis que poderiam servir como presas indefesas e, é claro, a droga favorita do nosso protagonista.


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