terça-feira, 11 de fevereiro de 2014


Análise:

The Spetacular Now (The Spetacular Now / 2013 / EUA) dir. James Ponsoldt

por Lucas Wagner

A fronteira final entre a adolescência e a vida adulta é uma temática que desde muito tempo vem atraindo diversos cineastas, permitindo a criação de obras como A Primeira Noite de Um Homem, American Graffiti, Picardias Estudantis ou qualquer filme dirigido por John Hughes. E não é para menos que essa temática fascine tanto, já que a complexa gama de emoções que envolve se tornar independente e entrar num mundo adulto sobre o qual a observação constante grita que há uma armadilha no horizonte, ao mesmo tempo que deve-se buscar orientar-se diante da sombra que os pais exercem na vida de qualquer jovem, é realmente uma área de estudo sempre frutífera. E o jovem Sutter Keely, desse The Spetacular Now, sente e teme essas questões sobre se tornar adulto, e a caminhada que enfrenta para descobrir mais sobre si e buscar um norte não é senão necessária, já que o tempo está passando.

Escrito por Scott Neustadter e Michael H. Webber com base no romance de Tim Tharp, o longa conta a história do citado adolescente, Sutter (Miles Teller), que vive sobre os princípios de uma filosofia sobre “o agora”, de aproveitar o máximo de cada momento e de sua popularidade no colégio. O romance que aos poucos cria com a bela geek Aimee Finecky (Shailene Woodley) é o início de uma amadurecimento maior do protagonista.

Funcionando como um estudo de personagem, The Spetacular Now tem a enorme sorte de contar com uma soberba atuação de Miles Teller como Sutter, já que o jovem ator demonstra conhecimento profundo do personagem para conseguir desenvolvê-lo em toda a complexidade que o roteiro prepara. Sutter é um sujeito inegavelmente gente boa. Brincalhão, bem-humorado e extrovertido, o jovem é aquele tipo de figura essencial em qualquer festa. Buscando seguir sua filosofia sobre “viver no agora”, Sutter acaba, no entanto, demonstrando imensa imaturidade em suas atitudes impensadas, podendo assim machucar sentimentos de outras pessoas, algo que fica claro no início do seu envolvimento com Aimee, quando não havia sinal de interesse romântico por parte dele e, ainda assim, o rapaz insistia em iludir a pobre e frágil garota, não com más intenções, mas simplesmente por não perceber o potencial mal que poderia estar fazendo, e se surgia uma leve sombra de preocupação, essa logo acabava quando pensava em flertar com sua ex-namorada. Ainda assim, Sutter é dono de um coração de ouro, e o interesse que demonstra pelas pessoas ao seu redor é genuíno, algo que depois compreendemos como uma intrincado mecanismo de defesa psicológico para evitar descobrir mais sobre si mesmo.

Pois existe uma tempestade no jovem Sutter, e muito se deve ao enorme medo que tem da vida adulta. Assim como o Ferris Bueller do clássico Curtindo a Vida Adoidado, de John Hughes, Sutter busca reprimir sua insegurança na vida desregrada, mas acontecimentos mais sérios ao longo da projeção vão fazendo com que ele seja obrigado a olhar para si de maneira mais crítica. Apresentando uma séria tendência ao alcoolismo, Sutter constrói para si uma imagem trágica de alguém que está sempre tentando anestesiar seus sentimentos através do álcool, não percebendo quão patética é essa imagem, que ele parece enxergar como sinal de madura rebeldia. Olhando com ameaça o mundo adulto, Sutter é capaz de perder o interesse em alguém (como na ex-namorada) quando surge a cobrança de algo “maduro, sério”, ao mesmo tempo em que sente um medo de se tornar como o pai. O que não percebe é que esse olhar crítico em relação à vida adulta, que ele julga como sinal de maturidade, não é senão infantil, e o modo como machuca pessoas ao longo da projeção e toma decisões monstruosamente egoístas são provas de um enorme despreparo e negação, além de evidente desespero. Mas existe, no fundo, alguma maturidade em seu olhar, como ao observar, com tocante carinho, seus colegas dançando no baile da escola, e, numa fala possuidora de grande sabedoria, comenta sobre aquele ser o momento deles, que eles lembrarão pelo resto da vida, ou ainda, na sinceridade crua com que conversa com seu chefe no terceiro ato, maturidade que, nesse momento, revela um fatalismo desnescessário mas que, à sua própria maneira, possui certa sabedoria pelo reconhecimento de limites.

Mas The Spectacular Now também funciona como um belíssimo romance, algo essencial para a obra. Apresentando uma sensibilidade tocante no desenvolvimento do relacionamento amoroso entre Sutter e Aimee (algo nada surpreendente se lembrarmos que os roteiristas também são os responsáveis pelo belo (500) Dias Com Ela), o longa alcança a proeza de nos fazer importar com o futuro do casal, principalmente pelo cuidado que demonstra ao explorar o início dos sentimentos que vão brotando, até que estes alcancem um status realmente sério dotado de uma beleza contagiante, que fica evidente numa cena de sexo que, aparentemente burocrática, exala um carinho e cuidado belíssimos. E se isso é essencial à obra, é porque o próprio arco dramático de Sutter está atrelado à esse relacionamento. E, como não poderia deixar de ser dito, me apaixonei por Shailene Woodley (que surpresa... como se isso nunca tivesse acontecido antes), não só pela beleza da atriz, mas pelo talento que demonstra na sua composição de Aimee, criando uma jovem fascinante, cuja fragilidade e insegurança são palpáveis, assim como a paixão que vai criando por Sutter, nunca parecendo submissa ou fraca, mas simplesmente frágil na pouca compreensão que tem dos “assuntos da vida”, algo que vai apresentando certa mudança no amadurecimento que vive ao longo da projeção, lindamente demonstrado por Woodley. Mais uma excepcional atuação de uma atriz que, desde seu papel em Os Descendentes, merece atenção especial.

Dirigido com sutileza por James Ponsoldt, que ao invés de chamar atenção para si prefere focar no talento de seu elenco (que ainda conta com performances marcantes de Kyle Chandler, Mary Elizabeth Winsted e Brie Larson), The Spetacular Now é um drama sensível e um romance tocante, que consegue acabar não só fechando com sabedoria o arco dramático de seu protagonista, mas apresentando uma noção sóbria mas otimista de que não só há o tal “espetacular agora” do título, mas diversos “espetaculares agoras” que nunca serão desbravados se medos e inseguranças não forem enfrentados.

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