segunda-feira, 30 de setembro de 2013


Breaking Bad, série completa, SPOILERS!

por Lucas Wagner

 Quem me conhece sabe da minha paixão pelo seriado Breaking Bad, tanta paixão que eu dedicava tempo até para comentar um pouquinho sobre cada episódio. Com o fim da série, decidi escrever um texto mais completo, que acabou grande demais, mas que dividi em tópicos analíticos que estruturam melhor o texto além de tentar tornar a leitura menos maçante. Para quem se interessar, ai está:

HEISENBERG

  Ao crescermos e nos tornarmos adultos é inevitável alguma decepção, alguma sensação de perda, de que talvez esperássemos mais do que do que os rumos que nossa existência tomou. A vida em família, calma e pacata, apreciando as pequenas coisas do cotidiano, tem suas vantagens, mas há uma força maior no ser humano que o impulsiona a almejar mais de sua vida. Essa força pode adquirir proporções monstruosas e consumir tudo, já que, há tanto represada, agora se vê livre e solta para jogar sua fúria sobre todos aqueles que antes à prensavam.

  O que quero dizer é que todo mundo tem um pouco de Heisenberg dentro de si, embora nem todos cheguemos a ponto de liberá-lo com tanta fúria e vontade como fez Walter White. E talvez seja esse o maior dos inúmeros motivos de Breaking Bad ter sido um dos seriados mais fascinantes e aclamados de todos os tempos. Mas vamos com calma. Nesse texto quero dissecar um pouco do meu amor apaixonado pelo seriado.

  Endividado até o pescoço, com uma filha por chegar e um filho com problemas físicos, Walter White já teria com o que iniciar uma depressão. Junte à isso o fato de ser um excepcional químico que tem que se contentar com um trabalho como professor de ensino médio e como caixa de um lava-jato, além da vergonha de ver antigos colaboradores fazendo tanto sucesso com uma empresa que já foi parte sua, e ainda acrescente um orgulho ferido. Agora, só para completar, esse homem pacato e decepcionado consigo mesmo descobre ter câncer de pulmão, sendo que nunca nem mesmo pôs um cigarro na boca. E tem-se o composto orgânico que é White.

  O seu câncer, no entanto, serviu como um impulso para o professor colocar sua vida em perspectiva e soltar um pouco da raiva que tinha dentro de si. Assim, é com alegria que vemos seu sorriso eufórico quando manda seu chefe do lava-jato “se fuder” ou danifica o carro de um babaca engravatado arrogante. Mas ele vai morrer, e sua família precisa de dinheiro. Ele coloca seu conhecimento de química para produzir metanfetamina, pura e impecável, ao lado de seu antigo aluno, e agora traficante, Jesse Pinkman (Aaron Paul). O perigo e a proximidade da morte que Walter enfrenta lhe excita e assusta, e até sua vida sexual melhora. Ele pode sentir o sangue fluindo de novo, algo que não acontecia à muito tempo.

  Walter cria o codinome Heisenberg (físico importante da História) para fazer seus negócios sujos. Mas a euforia e eletricidade dessa nova vida o suga completamente. Aos poucos, vamos presenciando uma dolorosa metamorfose do bom homem de família, trabalhador e gente boa, num psicopata frio e sedento por poder. Walter vira Heisenberg. E para isso, é fascinante como os realizadores vão trabalhando as contradições inerentes desse personagem. Seria absurdo que de uma hora para outra ele se tornasse um vilão todo poderoso. Assim, a série vai desenvolvendo sua relação com Jesse de forma brilhante, com esse servindo como uma ponte para a completa vida de crimes de White. Para que ele pudesse abraçar totalmente as trevas.

  Explico: White é um homem de família, e a ama demais. Para que Heisenberg tomasse conta, ele precisaria estabelecer um vínculo, à principio, familiar com aquele novo universo,  assim justificando sua passagem. E Jesse acaba se tornando esse vínculo, como um filho simbólico, algo que a série demonstra com absoluta maestria em momentos sublimes, como na 2ª temporada, quando faz uma rima visual com Jesse e Holly (a filhinha de Walt), quando o primeiro, depois de usar heroína, é instruído a deitar de lado para o caso de vomitar, e uma cena antes tinham instruído Walt a colocar a menina do mesmo modo no berço; ainda há o momento, na 4ª temporada, em que Walt Jr colocar o pai para dormir, e este, logo antes de adormecer, confunde o filho com Jesse. É icônico ainda que, no fim da 3ª temporada, Walt mate um homem sem nem piscar com o pretexto de proteger Jesse, enquanto na primeira temporada tinha demorado três episódios para matar Krazy 8.

  Assim, outro simbolismo maravilhoso surgiu naquele que é, para mim, o melhor episódio da série, “Fly”, da 3ª temporada. Dirigido por Rian Johnson (responsável por filmes excelentes como Looper e Na Ponta de um Crime), o episódio parava o desenrolar da trama para trabalhar diversos simbolismos, embora um fosse mais importante: o da mosca que Walt tenta tão desesperadamente matar. A mosca lembra a metamorfose vivida por Jeff Goldblum no filme A Mosca, de David Cronenberg, que por sua vez lembra o conto “A Metamorfose”, de Kafka. Se isso já é interessante, mais fascinante ainda é observar que tal simbolismo é construído para mostrar Walter colocando sua “cabeça para fora da água”, pedindo socorro pelo Heisenberg que o consome. Vemos o químico afundando em si mesmo, gritando por ajuda por não conseguir evitar o que virá, a tempestade que a todos destruirá.

  A 4ª temporada trás duas situações importantíssimas para o afloramento total de Heisenberg: a proximidade da morte promovida pela figura do vilão Gus Fring e por Skyler estar tentando reatar a relação familiar com Walt. Com a possibilidade de morrer e também de ter que voltar à vida pacata da qual conseguiu escapar um pouco, Walter se retrai e começa a dar total brecha pra Heisenberg (que tinha ficado levemente retraído depois da separação de Skyler, no 3º ano). Afastando Skyler violentamente (“EU SOU O PERIGO!”, ele diz para ela), Walt vira 100% Heisenberg quando mata Gus, soltando uma de suas mais importantes falas até então: “Eu venci”. Ele não quis dizer que salvou a família e à si mesmo, mas que jogou um jogo macabro e saiu vitorioso. O professor de química humilhado, derrotado à tanto tempo, saiu vencedor e abraçaria essa vitória com toda a fúria existente. E assim, a primeira metade da 5ª temporada deixa Heisenberg solto, e vemos toda a dimensão de sua maldade e poder através do simples prazer que ele sente ao ouvir seu nome (“Say my name!”), até que ele vai, mais ou menos, percebendo os danos dessa sua personalidade, que o tornou um homem temido, mas também solitário. E na segunda metade da 5ª temporada, Walter tenta reconstruir sua vida longe de Heisenberg, mas a metamorfose que sofreu foi profunda demais para isso, e o personagem ainda evidencia diversos traços de comportamento que denunciam a sobrevivência de seu alter ego. Ele chega mesmo a “evocar” Heisenberg em momentos que precisa controlar e manipular, apelando para isso mesmo em relação ao seu cunhado Hank, que agora descobriu seu segredo.

  E assim chegamos à perfeição desse fechamento da série. Tal como o Ozymandias do poema que dá nome ao anti-penúltimo episódio do seriado, Walt é uma espécie de imperador que foi arruinado, e tudo, absolutamente tudo que tinha construído, foi jogado por água abaixo. Como esse lendário homem se comporta nesse ambiente? De forma extremamente complexa, com certeza, onde os roteiristas demonstraram absurda compreensão do personagem que criaram, e lhe deram um fechamento impecável. Walter reconhece o câncer que Heisenberg foi em sua vida. Destruiu sua família, matou gente que amava, lhe transformou em um fugitivo. Mas Walt foi capaz de se compreender ainda mais: ele sabe que gostou da jornada que teve como Heisenberg, sabe que ela lhe fez bem, e sabe que, muito provavelmente, a faria de novo. Isso fica evidente quando Skyler diz “Por favor, não quero ouvir de novo a história de que você fez tudo isso por nós”, e ele responde: “Não. Fiz por mim. E eu gostei. Eu estava vivo”, depois de o vermos tantas vezes afirmar falsamente (embora ela acreditasse na veracidade da fala) que tudo o que fez, fez pela família. É essa melancolia profunda que ele atinge na sua autoanálise que é tão linda.

  Essa melancolia, aliás, se reflete na construção desse belo último episódio da série. Ao invés de investir num capítulo explosivo e furioso, o diretor Vince Gilligan (criador do seriado) tira a trilha sonora original e só permite sons diegéticos (origem no ambiente), e investe numa montagem calma e pausada, que reflete não só a melancolia, mas a resignação de Walter ao realizar seus últimos atos. Ele sabe que é um suicídio, mas ainda assim demonstra inteligência e controle de si mesmo ao, por exemplo, não explodir com Elliot e Gretchen, mas fazer o que era necessário (lhes entregar o dinheiro) para só depois degustar um pouco de uma tortura psicológica angustiante contra os dois. Aliás, a performance de Bryan Cranston nesse último episódio foi sublime e impecável, pelo ator trabalhar até mesmo em um tom de voz que traduz cansaço e, mais importante ainda, calma. Walter não está com raiva. Está plenamente consciente de seus atos e de aquele é o fim.

  E aqui é que está o elemento mais importante: ele olha para toda sua vida com certa tristeza, mas também com orgulho do que viveu. Pode ter sido uma vida transtornada, mas ele experimentou o poder de ser um homem perigoso e lendário, a proximidade da morte, o amor de uma mulher, o carinho dos filhos, o calor de uma amizade, a euforia de uma conquista...e fez tudo isso muito bem. Pode ser que ele tenha destruído tudo, mas ele ainda assim viveu tudo isso. E assim, seu último olhar para Skyler é de profunda significação: ele a olha, como que com uma leve despedida, e logo desvia o olhar. Assim também com Jr, que observa apenas de longe, ou Jesse, a quem salva e evita qualquer manipulação, sendo que a troca de olhares dos dois no fim do episódio é um momento repleto de significados, por trazer, naqueles poucos segundos, uma despedida dolorosa de uma aventura trágica, e de uma relação conturbada, destruída, mas ainda assim, de pai e filho. Ele ainda se despede de seu produto, passando a mão com carinho nas máquinas que se usa para produzir metanfetamina, com um sorriso que revela certo orgulho por ter sido capaz de produzir um produto de alta qualidade (e não é a toa que deixe uma marca de sangue na máquina que toca).

  E assim Walter White/Heisenberg morre como homem consciente de seus erros e de sua própria vida, consciente de que essa valeu a pena. Ele a viveu de forma destrutiva, mas ainda assim a viveu. Assim, Walter se tornou um dos personagens mais complexos da História da ficção, não devendo em nada à ícones como Michael Corleone, Travis Brickle, Jack Torrance ou, até mesmo, Bentinho.

RÁPIDA E INJUSTA PASSAGEM PELOS OUTROS PERSONAGENS

  Breaking Bad não só é o estudo de Walter, mas de diversos outros personagens que vieram a se tornar íntimos do espectador. E cada um deles merecia não um texto, mas um livro apenas para discuti-los em detalhes. Infelizmente, só vou poder fazer isso em alguns parágrafos, algo inerentemente injusto.

JESSE:

  Vamos começar, é claro, por Jesse Pinkman. A trajetória de Jesse no seriado é de moleque irresponsável e inconsequente para um homem deprimido e trágico. No início, era o máximo ver seu lado rebelde e babaca, repetindo a expressão “Yo, bitch!” constantemente, mas contingências complexas fizeram com que ele fosse amadurecendo. Assim, na passagem da primeira para a segunda temporada, Jesse foi renegado pelos pais, viu gente morrer e teve que aprender a derreter corpos em ácido. Isso foi fortalecendo-o, mas não matou, e sim ressaltou seu lado sensível. E isso é muito importante: Jesse é um cara extremamente sensível. Seu envolvimento com drogas o afastou da família, gerando uma lacuna afetiva que ele buscou suprimir através de relacionamentos amorosos como aquele que viveu com Jane e depois com Andrea, ou relacionamentos de caráter filial, como com Walter e Mike.

  Mas a vida, o envolvimento com crimes, foi empurrando o garoto contra a parede: Jane morreu, Mike morreu, Andrea morreu (só que mais para frente) e, no fim das contas, ele percebe que foi Walter o grande culpado. Isso só o destrói ainda mais. Interessante é notar como, a partir de certo momento, Jesse parece querer afastar-se de seus relacionamentos, numa atitude altruísta que visa proteger seus amados, como quando termina com Andrea. Mas a vida de crimes não era para ele, e por mais que ele tentasse se esconder sob uma armadura de frieza e irritabilidade (como no início da 4ª temporada, logo depois de ter matado Gale), essa (a vida de crimes) acabou o consumindo por completo, ao ter que presenciar a morte de uma criança como se não fosse nada (isso na primeira metade da 5ª temporada); o pior de tudo, na verdade, foi a percepção de que aquele que era o seu maior esteio, Walter, ter se revelado um psicopata manipulador. Assim, é curioso que em certo momento do último capítulo Jesse tenha um delírio de que é um carpinteiro, trabalhando sob uma luz divina, enquanto na verdade está produzindo metanfetamina. É uma maneira de Gilligan o mostrar como um mártir sofredor (Cristo).

  A performance de Aaron Paul foi mais do que essencial para o desenvolvimento de Jesse, já que surgiu intensa como necessário, com o ator abraçando toda a intensidade, tragidicidade e sensibilidade do personagem.

SKYLER:

  Apesar de muitos adorarem falar mal dela, Skyler é uma personagem fascinante com um arco dramático extremamente complexo. Mãe e esposa dedicada, a série já acertava ao pintá-la como uma figura justa que desprezava a corrupção (lembram-se de seu desgosto ao perceber que Ted Beneke, seu chefe, era metido com sujeira?). Assim, sua passagem para cúmplice de Walter no crime foi feita com sutileza, para que a mudança não surgisse como brusca. Foi feita de modo pausado o suficiente para que compreendêssemos que ela mudou pelo bem da família, pela manutenção do lar que construiu. Só que essa mudança também transformou sua personalidade, e existiam momentos em que ela afundava no medo e no pânico, numa depressão profunda em que só o amor pelos filhos impedia que ela se matasse (e assim, o momento em que mergulha na piscina, de roupa e tudo, na 5ª temporada, é um lindo símbolo para sua tentativa de se purificar do mundo sujo em que vive); mas também ela se tornou uma tremenda estrategista, capaz de calar sentimentos profundos em prol do uso da razão, como quando cala sua dor por Ted (no início da 5ª temporada) para mostrar frieza e determinação. Para completar, sua despedida da série foi memorável por permitir que vislumbrássemos surpresa em seu olhar quando Walter admite que tudo o que fez foi por motivos egoístas. Depois, quando o ex-marido segura Holly no colo, ela o observa com nostalgia, como se por um breve instante conseguisse enxergar o homem com quem se casou.

  E podem falar o que quiserem da suposta “frieza” na interpretação de Anna Gun, e eu ainda assim retruco dizendo que sua performance foi impecável, delicada, e demonstrou a complexidade de uma mãe de família e esposa amorosa sendo obrigada a se adaptar à um ambiente aversivo.

HANK:

  A trajetória de Hank pode ser muito bem representada por um plano do primeiro episódio da segunda metade da 5ª temporada. Ele estuda vários papéis freneticamente para estabelecer a ligação entre Walter e Heisenberg, colocado no fundo do quadro, enquanto em primeiro plano vemos a propaganda da cerveja caseira que antigamente produzia. Seu arco dramático reside justamente no de um homem gente boa, alegre e brincalhão, que por orgulho ferido acaba se “embrutecendo”, chegando no ápice de sua transformação quando descobre a verdade sobre Walter. Foi fascinante acompanhar sua confusão sentimental nessa última temporada, por ter que encarar seus próprios familiares como inimigos. Aliás, foi justamente isso que por vezes o cegou, como ao não conseguir enxergar que Skyler era uma cúmplice. A atuação de Dean Norris, vale dizer, foi impecável na intensidade crescente que o ator foi dando a Hank.

MIKE:

  O guarda costas “resolvedor de pepinos”, matador sanguinário e ex-policial, foi capaz de conquistar o espectador pelo amor incondicional que tinha pela netinha. Aliás, é basicamente a sublime performance de Jonathan Banks que permitiu que o personagem crescesse tanto, já que o ator apostou num olhar de “peixe morto” que revelava o cansaço de alguém que já viu muito do mundo e que muito pouco o impressiona. Nunca esquecerei o momento em que tem sua orelha parcialmente decepada e solta um suspiro de quem diz: “que saco”. Genial.

GUS:

 Ele pode ter morrido na 4ª temporada, mas merece menção por ter sido um vilão absolutamente genial em sua frieza e perfeição técnica, que sempre evitava que fosse pego, já que apresentava cuidado e inteligência excessivas em sua prática como traficante. Nos aproximamos dele mesmo, no entanto, quando descobrimos que toda essa sua atitude “meio autista” era na verdade sintoma de um homem que aprendeu desde muito cedo que acreditar e confiar nos outros era pedir para ter problemas no futuro.

TODD:

  Podem querer me bater, mas Todd foi o maior antagonista que essa série já teve. Sua natureza infantil é palpável. Ele é inseguro, tem uma feição juvenil, é doce e gentil. Mas revela uma natureza maligna fascinante em atitudes como matar, a sangue frio, uma criança(na primeira metade da 5ª temporada) ou ainda pelo detalhe genial da atuação de Jesse Plemons no sorrisinho que dá quando vê Jesse o destruindo em um vídeo, já que sabe que Pinkman nada mais fará já que está sendo feito de escravo por ele e sua gangue. Mas como não se maravilhar com esse psicopata que ainda dá sorvete para sua vítima simplesmente por achar que fazer isso seria de bom grado?

MARIE:

De princípio estabelecendo-se como a personagem mais chata da série, Marie foi ganhando mais dimensão principalmente após Hank ter quase sido assassinado pelos gêmeos da 3ª temporada, já que ai ela demonstrou a dimensão do amor pelo marido e também seu valor como esposa, quando se mostrou dinâmica e resistente ao aguentar o mal humor de Hank quando este necessitava de cuidados especiais. Pessoa claramente desestabilizada emocionalmente, Marie, se vendo contra a parede em situações adversas, descarregava frustrações através de sua cleptomania, e as sequências que mostram a mulher indo em várias casas p vender, inventando histórias mirabolantes sobre sua própria vida enquanto roubava algo, era um claro sintoma de alguém que não conseguia lidar tão bem com sua própria personalidade (assim, o plano plongée da 3ª temporada em q a vemos numa calçada toda estragada é um símbolo claro p sua psiquê). 

Interessante é, no entanto, notar como nessa última temporada ela pareceu assumir uma posição até mesmo vingativa em relação à Skyler, qnd descobrei a vdd sobre Walt, como se se vingando finalmente da "superior" irmã


WALTER JR:
Filho dedicado, Junior tinha o pai num pedestal, alem de amar muito a mãe. Quando via sua família desestruturada sem poder compreender mesmo o q estava acontecendo, Jr assumia uma posição sempre defensiva em relação aos aparentemente inocentes (nesse caso Walter). Aliás, era comovente ver sua vontade de impressionar o pai mesmo quando esse abusava dele, como na 2ª temporada, em q o fez beber até vomitar.
Essa personalidade foi construída p tornar mais trágico o momento q descobrisse sobre Walter ser criminoso, já q o choque da descoberta teria muito mais relevância. E tal estratégia dos roteiristas foi extremamente bem sucedida.

SAUL:
Sacana, esperto, enganador e falastrão, Saul Goodman foi um picareta maravilhoso cuja natureza desconexa ficava demonstrada com perfeição através de seu constante terno cujas medidas surgiam maiores do q o necessário (detalhe fantástico do figurino). Mesmo sem muita força dramática, acompanhar Saul e suas sempre sublimes tiradas era um deleite para os fãs de Breaking Bad.



SUPERIORIDADE NARRATIVA DE BREAKING BAD

  Uma coisa que sempre me fascinou demais no seriado foi a capacidade de seus roteiristas e diretores de confiar no espectador, o que permitiu que o seriado desenvolvesse uma narrativa sofisticada e intensa.

  Muitos iniciantes no seriado se irritam por seu ritmo pausado, desejosos de ver “coisas acontecendo”. Ora, isso para mim revela enorme imaturidade. Na verdade, é um puta acerto do seriado de evitar “ação demais” e dedicar enorme tempo ao desenvolvimento dos personagens e das relações entre eles. É justamente por isso que, quando tem ação e suspense, Breaking Bad se sai melhor do que qualquer outro seriado; afinal, temos uma ligação emocional com aquelas pessoas e sua morte iria, inevitavelmente, nos afetar.

  Além disso, o seriado conseguiu a proeza de muitas vezes deixar o espectador sinceramente surpreso ou sem conseguir enxergar para onde a história iria caminhar. Peguemos, por exemplo, o início dessa segunda metade da 5ª temporada. Depois que Hank descobriu a verdade sobre Walter, deduzimos que ainda demoraria para ele encarar o lendário Heisenberg, mas os roteiristas fizeram isso ainda no primeiro episódio da segunda metade, “quebrando as pernas” do espectador de conseguir fazer qualquer previsão que fosse.

  O realismo de Breaking Bad (embora por vezes quebrado) também foi uma de suas maiores virtudes, já que as situações se tornavam palpáveis. Até mesmo o modo que lidaram com o acidente de Hank, na 3ª temporada, foi impecável, já que a dificuldade de reaprender a andar foi demonstrada perfeitamente e com a crueza necessária; aliás, esse acidente continuou mantendo suas sequelas até o fim da série. O humor do seriado também se revelou genial, apesar de ter diminuído gradativamente (o que foi um acerto), mas sempre se mostrou ácido e perspicaz. Como já tinha dito, a confiança no espectador foi outra grande virtude, já que os realizadores evitaram ficar martelando situações óbvias.

  O melhor de tudo na narrativa é a construção de conflitos fascinantes em que os lados opostos apresentavam imensa inteligência e perspicácia. Cada um dos oponentes (Walter vs Gus; Walter vs Hank; etc) tinha a habilidade de antecipar os movimentos do outro, criando assim um jogo intenso e imprevisível, além de muito mais empolgante por, acima de tudo, compreendermos os dois lados da moeda.

SUPERIORIDADE TÉCNICA DE BREAKING BAD

  Apesar de tudo isso que falei no texto até agora, o que eu mais amei no seriado é sofisticação absoluta da sua construção técnica, que o coloca acima da maioria das obras cinematográficas da atualidade. Pois o fato é que Breaking Bad sabe usar imagens para contar sua história, preferindo apostar na construção de ironias e poesias visuais que dizem muito mais do que se os personagens discorressem longamente sobre determinado assunto.

  Primeiramente, as cores. Breaking Bad estabeleceu, desde início, uma ligação íntima com cores. A família era representada por azul, e o crime pelo vermelho e amarelo. Logo, no início da série, Skyler vestia sempre azul, e Jesse vermelho e amarelo. Mas Walter sempre verde. Por quê? Misture azul (família) com amarelo (crime) e tem-se a cor verde. Walter era, no início do seriado, uma mistura das influências familiares e da nascente vida no crime. Mas essa lógica foi mudando, como não poderia deixar de ser. Em certo momento, Jesse parou de usar vermelho e amarelo, quando começou a se afastar emocionalmente do crime (quando Jane morreu, na 2ª temporada), e Skyler parou com o azul, quando passou a usar mais branco como uma cor neutra das influências da família. Já Walter passou a usar mais vermelho e branco, apenas usando azul ou verde em momentos estratégicos.

  Essa lógica das cores não se ateve “apenas” ao figurino, mas também aos elementos do cenário. Quando se depara com sua casa destruída, Walter vê o nome “Heisenberg” pichado de amarelo na parede, ou ainda Jesse, quando Badger e Skinny Pete discutem Star Trek, tem atrás de si uma televisão em que imagens psicodélicas das cores amarelo, verde, azul e vermelho se misturam interminavelmente, numa representação clara de seu estado mental confuso e obscuro, repleto das influências que foi recebendo ao longo do tempo. Também, no último episódio, quando está no carro parado, um carro da polícia passa por Walter, lhe jogando no rosto as cores azul e vermelho, enquanto ele diz para si, acreditando que ia ser pego, “apenas me leve para casa”. Nessa mesma lógica impecável, o símbolo da piscina que citei na segunda parte do texto, no subtópico sobre Skyler, é mais genial ainda se observarmos que ela mergulha numa piscina totalmente azul, buscando ser engolida pela simples e pura lógica familiar de antes (como disse: azul = família), que ela tinha abandonado no seu figurino (parecia agora só vestir branco). Acima de tudo, essa lógica das cores assume um detalhe de brilhantismo absoluto no último episódio da 3ª temporada, quando, em um ambiente de Laser Tag, Jesse e Walter ficavam piscando nas cores azul, vermelho e verde, numa referência genial ao momento dos video-games mais antigos em que o personagem está perdendo a vida, e fica piscando em cores; o fato das cores serem exatamente essas apenas torna tudo mais sublime.

  O design de produção também acertou ao explorar imensamente as possibilidades narrativas dos ambientes. Assim, na 2ª temporada, era fascinante observar Walter alucinado tentando consertar os alicerces de sua casa logo depois de ter deixado Heisenberg extravasar ao fazer Walt Jr beber muita tequila e ter brigado com Hank; era como se Walter estivesse tentando “corrigir o erro em sua base”. Dessa forma também, o laboratório debaixo da lavanderia era adequadamente vermelho.

  Dirigido por verdadeiros gênios como Michelle McLaren, Peter Gould e os já citados Vince Gilligan e Rian Johnson, além do próprio Bryan Cranston, Breaking Bad apresentava a capacidade de criar planos repletos de significados, que ainda conseguiam estabelecer determinados estados emocionais em seus espectadores. McLaren, por exemplo, fazia referências ao faroeste ao filmar Walter e Hank como pistoleiros, em certo momento da 5ª temporada. Vários enquadramentos da última temporada, por sinal, traziam seus personagens sozinhos em planos abertos, representando a solidão em que se viam. Houve até mesmo um plano genial, nessa última temporada, em que Walter era visto no lado de fora da casa de Andrea, e uma cruz católica era visível bem perto da porta, como se o ícone religioso impedisse a entrada do demônio (Heisenberg); nessa perspectiva ainda existe outro plano evocativo em que o esqueleto de uma cabeça de boi era mostrado em primeiro plano enquanto Walter era visto no fundo do quadro. A mise en scéne (movimentação e posicionamento dos atores em cena) foi quase sempre impecável em todo o seriado, passando ideias como a de Walter como um poderoso chefão ao trazê-lo sentado enquanto Mike e Jesse ficavam em pé, ou ainda ao trazer um plano com Skyler no ponto de fuga esquerdo (mais fraco, trazendo ideia de inferioridade) e Marie no ponto de fuga direito (mais forte = ideia de superioridade). Assim, Breaking Bad acertou imensamente no sábio uso de técnicas cinematográficas complexas para desenvolver ideias e relações.

  Falando em técnicas cinematográficas, a fotografia do seriado foi um de seus pontos mais fascinantes, por também conseguir evocar diversas ideias. Observem, por exemplo, como essa última temporada constantemente trazia seus personagens nas sombras, ou em ambientes escuros, sem nenhum foco de luz. Isso foi algo muito observável na trilogia O Poderoso Chefão e que Breaking Bad usou em seu próprio beneficio, clamando pela natureza sombria de seus personagens, além de ressaltar a situação aterradora em que se encontravam. Também, há um plano nesses últimos episódios que eu amo, com Walter no meio do quadro, enquanto Todd no fundo é iluminado pela cor vermelha e seu tio Jack fica nas sombras, como um monstro. Aliás, no último episódio podemos enxergar a inteligência da fotografia em diversos pontos, como ao trazer, em um plano aberto, Walter iluminado por cores sombrias enquanto Elliot e Gretchen ficam em um ambiente mais iluminado, quando ainda não sabem do intruso em sua casa; também, é fascinante que a casa de Skyler venha iluminada por uma coloração verde, ressaltando a influência massacrante que Walter exerceu em sua vida.

  A montagem também não poderia ficar de fora, pois segue o mesmo principio dialético que Sergei Eisenstein tanto discutiu em seu livro O Sentido do Filme. A montagem é dialética por construir significados a partir da ordem de cenas (lembram-se de Tempos Modernos, de Chaplin, quando ele corta de ovelhas para operários saindo da fábrica?). Breaking Bad abraçou esse princípio com paixão fervorosa e investiu pesado nesse recurso para contar a história. Um exemplo perfeito seria um que citei na seção “Heisenberg”, sobre o corte de Holly deitada de lado para Jesse sendo instruído a deitar do mesmo jeito, o que transmite a ideia não só da relação pai/filho de Walt e Jesse, mas também da carência emocional e meio orfã deste último ao compará-lo com um bebê. A montagem também foi utilizada com perfeição com intenções cômicas, como na 1ª temporada, quando de Hank falando sobre como Heisenberg é perigoso, corta para Walter logo depois de acordar, se olhando mediocremente no espelho. Aliás, o uso de raccords era um fetiche constante dos realizadores, brincado a valer com o recurso, como ao cortar de um sopro de Jesse para uma máquina de vapor em funcionamento.

  Essa inteligência técnica do seriado também foi utilizada como recurso apenas estilístico, em diversos momentos, o que deu uma marca e charme próprios ao programa. A câmera, por exemplo, muitas vezes era colocada em lugares inesperados, como skates, tanques de gasolina, braços e pás, o que produzia um efeito visual curioso. E a trilha sonora também não poderia deixar de ser comentada, já que, desde a poderosa e viril trilha original composta por Dave Porter, até a seleção da trilha incidental (músicas existentes selecionadas) se revelou impecável e dinâmica.

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  Aqui vai meu extenso porém incompleto e injusto texto sobre Breaking Bad. Não é possível fazer jus à toda genialidade do programa, mas busquei descrever um pouquinho o por quê da minha paixão pelo seriado, além de ter servido como desculpa para que eu pudesse passar mais algumas horas mergulhado nesse fascinante universo que Vince Gilligan criou.

  E como não amar uma série cujo último episódio chama FELINA = FE (ferro), LI (lítio), NA (sódio) = sangue, metanfetamina, lágrimas? 

  É...vai fazer falta viu...


Notas das temporadas: 1: *****          4: *****
                                      2: *****          5: ***** 
                                      3: *****


Um comentário:

  1. Cara, vc fez um tratado sobre BrBa! Que texto bacana! Concordo com tudo que vc disse, fico com mais "esperança na humanidade" qdo leio um texto reconhecendo a importância da personagem Skyler, que vive sendo pichada como chata e vagaba. Puro machismo e misoginia.

    Walt conseguiu ser tão detestável pra mim que, num certo momento da 4a temp, me vi torcendo pro Gus, pois eu achava que ele tinha motivações muito mais sólidas pra entrar no ramo da meth e fuder com o Cartel.

    Jesse sempre foi meu personagem favorito. Filho abandonado, filho adotivo, engraçado, triste, apaixonado, magoado, corajoso, medroso, inteligente, atrapalhado, enfim, tanta coisa dentro de um personagem que só poderia ser interpretado por um excelente ator. Não sei dizer se foi sorte do Vince Gilligan apostar nesse jovem e desconhecido ator pra encarnar Jesse ou foi sorte do Aaron poder mostrar todo o seu potencial com esse papel. No fundo, sorte de quem viu e se emocionou com cada cena linda de Jesse.

    Destesto a Marie e o Walt Jr. Pronto, falei u.u

    Fly é um dos meus top five episodes. Belo, sensível, pausa perfeita pra ressaltar a complexa relação entre Walt e Jesse. E tem gente que acha que é só um filler...

    Confesso que a primeira vez que vi a série, me incomodei com o ritmo excessivo lento dos inícios de temps. Revendo, vi que é um recurso fundamental pra entender a estória, que é sobre pessoas, e não sobre aliens, zumbis, vampiros, etc....

    Nunca vi um deserto tão lindo retratado num programa de tv. Michael Slovis é o cara.

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